Meu desenho favorito, quando criança, era o dos Thundercats. Sempre brigava com meus primos, porque eu queria ser o “Lion-O” nas brincadeiras, mas eles também queriam. Lion era o líder. Lion corria desembestado pela floresta com sua juba ao vento. Lion tinha a visão além do alcance, proporcionada pelo Olho de Tandera, e acho que foi ela quem me fez enxergar o quanto brincar de princesa com as outras meninas era sem graça. Elas só ficavam sentadas bebendo chá — aquilo nem merecia ser chamado de brincadeira.

Princesas são vítimas de feitiços. Por isso elas vão embora correndo na melhor hora da festa; ou ficam presas, dormindo, no alto de uma torre; ou são enfiadas semimortas, num caixão de vidro. As qualidades dessas moças — basicamente beleza, doçura  e bondade  — despertam a inveja de irmãs, bruxas e madrastas. Princesas são vítimas. E ingênuas. E azarentas. Toda sua jornada de vida sofredora, contudo, deve ser redimida no último segundo, quando o príncipe, invariavelmente atrasado, chega para salvá-las.

Já as heroínas têm poder. Usam roupas que não limitam seus movimentos e não prendem sua circulação – talvez princesas desmaiem tanto por causa dos espartilhos. Heroínas voam, nenhuma torre poderia segurá-las, nenhum homem precisaria resgatá-las lá do alto, onde estão “de boa”. Super-heroínas, aliás, não esperam por príncipes, elas preferem os super-heróis. Alguém com quem voar lado a lado.

Os meninos, sorte a deles, são estimulados a vestirem como o Homem-Aranha ou Superman.  Mais do que uma fantasia, aquela capa pode ser um passaporte para a imaginação, para eles começarem a se ver como alguém capaz de ir até a lua ou de lutar pelo que acredita. Heróis também têm, sim, seus pontos fracos, mas a vulnerabilidade só os torna mais incríveis. Eles encaram dilemas e, em geral, vencem também a si mesmos, antes de salvar o dia. Não me admira nada os garotos preferirem se vestir como um herói a brincar de ser príncipe, aquele cara que aparece tão rápido na história, a ponto de ninguém guardar seu nome. Alguém aí lembra como se chamava mesmo o namorado da Rapunzel? E o da Cinderela?

O que causa estranhamento é ver, ainda hoje, tantas menininhas vestidas de azul, rosa ou amarelo, com saias longas e mangas bufantes, equilibrando uma tiara na cabeça, imitando as personagens mais tristonhas do mundo. Fingindo ser alguém que não tem  poder para alterar o próprio destino – e quanto mais para mudar a sorte do planeta. É um desperdício crescer querendo ser uma princesa em vez de uma super-heroína.

*Originalmente postado no sabrinaabreu.com.br

4 Respostas para “Desperdício crescer querendo ser princesa, em vez de super-heroína!”

  1. Silvia Orchidea

    Amei o texto. Algumas “pessoas”, com um problema de assimilar e aceitar que o empoderamento da mulher não vai deixar ninguém para trás. Pelo contrário, crescem todos, aprendendo a partilhar!

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