Hoje, a série Sex and The City completa 20 anos. Eu era uma adolescente que usava aparelho nos dentes e vestia um moletom da Pakalolo para ir ao colégio quando Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte apareceram na TV pela primeira vez. Morando com os meus pais, que ainda eram casados, eu preferia assistir séries sobre jovens infelizes, como Felicity e Dawson’s Creek, no Sony, em vez de zapear até a HBO e assistir quatro mulheres correndo atrás de homens e sapatos.

Só na faculdade dei uma chance à SATC. Vi que, além de sapatos e homens, a série era sobre amizade e sonhos. Pronto: a gente pode se identificar com isso em qualquer faixa-etária. Carrie vivia o melhor tipo de vida adulta: morava sozinha, era escritora (eu sempre quis ser escritora), trabalhava de calcinha e camiseta em casa, saía para almoçar com amigas e se dedicava diariamente a seu projeto de vida: encontrar o amor.

Deve ter sido entre uma e outra aula de jornalismo ou da pós em semiótica que passei a achar Carrie meio inútil. Ela vivia endividada para pagar por roupas para impressionar homens cujo nome ela não lembraria no dia seguinte — já do nome das grifes ela nunca se esqueceu.

Passei a enxergar aquelas quatro mulheres, não tanto como amigas, mas como parte de um grupo de apoio, tipo “frívolos anônimos”. Aumentava a minha antipatia o fato de cada uma ter papéis bem delimitados: a brava e ambiciosa (Miranda) a romântica e bela (Charlotte), a apaixonada por sexo e que nunca quer se envolver emocionalmente (Samantha) e a líder do rolê, Carrie.

A série estreou no fim dos anos 1990 e a década (na verdade, o século) seguinte começou a apontar para a complexidade de personagens capazes de ter características dissonantes em si mesmos (como seria a mãe traficante, de Weed, ou o médico com fobia social, de House). Nesse período, era impossível não pensar: mas por que a romântica não pode gostar muito de sexo? Por que a mulher ambiciosa tinha que ser também raivosa?

A multidão de lugares-comuns e reforço de estereótipos para um grupo de mulheres fez com que eu desprezasse Sex And The City por muito tempo. Mas, agora que não uso mais aparelho nos dentes, que moro sozinha e, de vez em quando, até escrevo em casa vestindo calcinha e camiseta, mudei de ideia de novo.

Carrie talvez não tenha sido uma heroína, mas a ficção não tem obrigação alguma de oferecer bons exemplos (faça-me um favor). Entre um cigarro e outro, humilhando-se por amor, pagando caro por roupas que, ela acreditava, fariam com que se sentisse melhor, ela foi a cara de uma geração anterior a minha, que descobriu a graça de poder fazer tudo errado, se tivesse vontade e contanto que arcasse com as consequências.

No fim das contas, apesar dos arquétipos que guiaram a construção das personagens, a identificação de mulheres, já há duas décadas, com o o grupo de quatro amigas se dá, pois enxergaram as pequenas incoerências que dão dimensão humana ao quarteto. Como aquela vez em que Miranda engravidou e manteve o bebê, ou quando Samantha se apaixonou. Carrie é aquela amiga que estava por perto, não para julgar as demais, só para estar por lá mesmo.

Carrie liderou um grupo de mulheres que mostrou o que era sororidade, muito antes de o termo ser disseminado. Ficou feliz pelo casamento das amigas, mesmo enquanto estava acompanhada de um boy lixo. Ela corria atrás de sapatos, mas era quem pagava por eles (às vezes, com o dinheiro do aluguel). E, finalmente, corria atrás de um amor até o ponto da humilhação, mas descobri que isso não diminui uma mulher de carne e osso nem um personagem da TV. Apesar do que eu imaginava nos meus tempos de colégio e moletom da Pakalolo, o descontrole faz parte da vida adulta. Tudo bem.

Se amadurecer um pouco me fez pensar que a série era ingênua e ridícula, amadurecer ainda mais me fez mudar de ideia sobre isso e sobre um monte de coisas. Mas, como Carrie, longe da casa dos meus pais, hoje em dia separados, e morando numa metrópole que não é a cidade onde nasci, continuo acreditando em amizades e amores que duram para sempre.

*Originalmente postado no sabrinaabreu.com.br

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